top of page
Buscar

Contraposições entre a retratação da favela por Carolina de Jesus e Tarsila do Amaral

Atualizado: 21 de ago. de 2023

No mesmo ano da publicação do Manifesto Pau-brasil e quatro anos antes do Manifesto Antropofágico, ambos marcos do modernismo brasileiro, Tarsila do Amaral termina sua obra "Morro da Favela", em 1924. Em uma tentativa de definir de uma maneira mais explícita a suposta identidade brasileira, a artista pinta uma paisagem idílica e romantizada, retratando através de suas tão conhecidas formas arredondadas uma cena teoricamente cotidiana do lugar que deu nome aos bairros pobres e periféricos de todo o país e que posteriormente seria um símbolo do Brasil no exterior: a Favela.



Morro de Favela (1924) - Tarsila do Amaral

Óleo sobre tela | 64 x 74 cm

Imagem retirada do site Vírus da Arte & Cia


Através de cores vivas e marcantes, com natureza abundante e uma possível família retratada, Tarsila pinta uma cena fantasiosa provavelmente inexistente no contexto em que a obra foi pintada, já que as favelas nesse território teriam seu início em torno de trinta anos antes da pintura ser concluída, após a Guerra de Canudos. Fatores como o grande número de soldados que voltaram da guerra sem moradia e a grande quantidade de população negra ex-escrava, sem nenhum suporte e apoio do governo foram determinantes para a ocupação do lugar.


Da esquerda para direita: imagem do Morro da Favela (hoje, Morro da Providência) e Morro da Favela, pintura realizada por Tarsila do Amaral

Imagens retiradas do site Museu de Imagens e Vírus da Arte & Cia


Talvez como único suspiro de crítica social presente na obra, Tarsila pinta em meio à figurações geometrizadas adultos com pernas e braços alongados e/ou fortes, símbolo de representação do trabalhador braçal, já que na época pessoas afrodescendentes e pobres não tinham direito ao estudo; característica não apresentada nas crianças, provavelmente por sua idade, apesar de serem relatados diversos casos na literatura de trabalho infantil no início do século XX.


Um pouco menos de 40 anos mais tarde, surge uma obra literária publicada em 1960 escrita por Carolina Maria de Jesus: Quarto de Despejo. O livro, que nada mais é do que um diário da própria autora, mostra de forma direta a realidade de uma favelada durante cinco anos, no período de 1955-1960.


O conteúdo é um soco no estômago. O reconhecimento da escritora de sua realidade e do seu ato político de escrever, onde durante diversas passagens do livro Carolina nos conta momentos onde pessoas evidenciam a visão racista que possuem, em que o lugar de uma mulher pobre e negra não é relatando sua vida ("Nunca vi uma preta gostar tanto de livros como você" e "Está escrevendo, negra fidida!"), rompe barreiras e mostra sua força como voz de toda uma população e geração.


Moradora da favela do Canindé, em São Paulo, a autora descreve com maestria a sua realidade, criticando abertamente políticos e medidas tomadas pelos mesmos, onde a cada eleição o sentimento de frustração aumentava. A periferia das casas sem iluminação, dos pedreiros, dos catadores de lixo, da falta de água encanada, da falta de alimentos, em uma época que beira o golpe militar de 64, onde começaria a perseguição política e ideológica dirigidas às pessoas com pensamentos contrários ao do governo ditatorial.


"Eu classifico São Paulo assim: o palácio, é a sala de visita. A prefeitura é a sala de jantar e a cidade é o jardim e a favela é o quintal onde jogam os lixos".



Carolina de Jesus e a capa de seu livro Quarto de Despejo

Imagem retirada do site Huffpost


É de certa forma irônica e previsível a comparação entre as duas obras: Tarsila, uma artista que morou na Europa, de família abastada, representa as moradias com falta de condições e degradantes como algo com um certo ar interiorano, calmo e relaxante. As pessoas, com roupas brancas e limpas, com suas casas pintadas de forma colorida sob palmeiras onde cantam sábias, com seus cachorros passeando livremente pelo quintal mostram talvez a falta do interesse da artista por temas sociais na época, mas mais do que isso mostram que pessoas brancas de famílias ricas não se preocupam com o outro lado da sociedade, seja por falta de vivência ou por seu ego.


A busca incessante pela definição do que é considerado arte brasileira na época pelos modernistas mostra majoritariamente, pela visão de Tarsila, um país onde a escravidão não deixou sequelas e os direitos à moradia e à vida são garantidos à população de mais baixa (ou nenhuma) renda. Apesar de posteriormente ter um vislumbre de crítica social em suas obras, Tarsila não ficou reconhecida mundialmente por seus trabalhos como "Segunda Classe", mas sim por representações equivocadas e fingidas sobre um Brasil irreal de paisagens tropicais, animais ao ar livre e pessoas vivendo em plena harmonia, em uma paisagem onde na realidade, no caso da obra citada, fica próxima à um dos portos com maior entrada de escravos do mundo.



Tarsila do Amaral

Imagem retirada do site ARTE!Brasileiros


Carolina era uma mulher sem muitos estudos formais, que comprava livros para instruir-se com o dinheiro que sobrava da alimentação dos filhos ou os recolhia dentro do lixo, foi exitosa em mostrar de maneira visceral a realidade da maior cidade brasileira. Tristemente, foi reconhecida após sua morte na sociedade da época apenas como uma "negra favelada que lançou um livro", fazendo também parte de um dos estereótipos mais famosos sobre uma pessoa afrodescendente, principalmente mulheres: como algo exótico ao mundo cosmopolita grandes cidades. Como citado por Fernando Pardal, "As páginas de Carolina, nas mãos dos acadêmicos, são permitidas; nas mãos dos trabalhadores, dos negros, dos pobres, no entanto, são um perigo".


Em uma exposição individual recente no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), Tarsila bateu recordes de visitação do museu, se consagrando mais uma vez como a principal exponente feminina do Modernismo brasileiro. Suas obras são mostradas desde o ensino infantil, onde possivelmente criancinhas de quatro anos já brincam de colorir o "Abapuru".


Em contraposição, apenas na universidade tive reconhecimento de quem era Carolina de Jesus; e não por ser uma leitura acadêmica e densa, mas sim porque suas experiências não são difundidas tão abertamente no Ensino Básico brasileiro. Felizmente, durante os dois últimos anos, a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) adotou Carolina de Jesus como uma das bibliografias de leitura obrigatória para a prova de vestibular da universidade, demonstrando assim a sua importância em um contexto brasileiro e de maneira lastimável que "Quarto de Despejo" ainda se encontra atual nos dias de hoje.


Por que damos mais voz e reconhecimento à uma mulher que não vivenciou os problemas reais das favelas brasileiras? Por que continuamos a reconhecer a cultura brasileira apenas em rostos brancos? Por que preferimos romantizar nosso passado e não ter uma visão crítica sobre ele?


48 visualizações1 comentário

1 Comment


Que texto forte e importante! Queria que em todas as exposições da Tarsila tivesse uma reflexão como essa e que os brasileiros soubessem melhor pra quem dar a fama e o prestígio de grandes acontecimentos do nosso país.

Like
bottom of page