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Colonialismo e Exploração: como a Cultura Pop ajudou a lavar o sangue das mãos da rainha britânica

No dia 8 de setembro de 2022 morreu na Escócia, mais precisamente no Castelo de Balmoral, a rainha Elizabeth II aos 96 anos. Para muitas pessoas como, por exemplo, o presidente Cyril Ramaphosa, da África do Sul, país que já foi uma colônia britânica, a rainha foi lembrada como uma “figura pública extraordinária que deveria ser lembrada com carinho”. Para outros, como anunciado através do comunicado emitido pelo Partido Combatentes pela Liberdade Econômica (EFF), opositor ao governo sul-africano, a morte da rainha não foi lamentada: “Durante seus 70 anos de reinado como rainha, ela nunca reconheceu crimes que o Reino Unido e sua família perpetraram pelo mundo, e era na verdade uma porta-bandeira orgulhosa dessas atrocidades”. (Maseko, 2022).


A rainha, que assumiu o cargo aos 25 anos, foi a monarca que permaneceu mais tempo no trono, falecendo no ano de seu Jubileu de Platina. Apesar de um reinado extenso, não se acreditava que Elizabeth II fosse ocupar o trono. Quando nasceu, o rei em poder era seu avô, George V. Elizabeth era a terceira na linha sucessória da coroa, seguindo seu tio Edward e seu pai, George. Após a morte de seu avô e a abdicação de seu tio, seu pai assumiu o trono em 11 de dezembro de 1936. Desta forma, Elizabeth torna-se aos 10 anos, a primeira na linha sucessória do trono, assumindo o mesmo a partir da morte precoce de seu pai, sendo coroada em 2 de junho de 1953.


A monarca britânica governou por 70 anos o grande império colonial, que explorou riquezas, torturou, escravizou povos, violentou mulheres e apoiou golpes de Estado em diversos países pelo mundo. A Inglaterra é o país que mais colonizou territórios, onde de 80 países que estiveram sob seu domínio, 66 são totalmente independentes e 14 ainda possuíam a monarca inglesa como chefe de Estado. Entre os países que ainda são representados pela monarquia, estão a Austrália, Nova Zelândia, Canadá, Antígua e Barbuda, Bahamas, Belize, São Vicente e Granadinas, Granada, Jamaica, Papua Nova Guiné, São Cristovão e Neves, Santa Lúcia, Ilhas Salomão e Tuvalu.


Durante suas sete décadas de reinado, a monarca britânica conservou uma imagem sólida, reforçando o mito de benevolência da família real britânica. O mito de bom monarca foi encarnado de forma convincente, com o apoio dos cidadãos, que acreditam que a família real é capaz de representar as nações e seus valores, aceitando assim uma boa dose de ficção (Filho, 2022). A imagem de “avó do mundo” ou “Betinha”, como começou a ser chamada depois de atingir mais de 60 anos, ajudou a manter o ideal de que pessoas idosas são bondosas e carinhosas, e sustentar a ideia de que uma mulher de cabelinho branco jamais seria capaz de matar sequer uma mosca. De acordo com Oliveira (2022), este mito foi construído essencialmente em três frentes: controle das informações, trajetórias descoladas do colonialismo e cultura pop.


O controle das informações manteve as informações coloniais guardadas como segredo de Estado, evitando assim o conhecimento público destes documentos. Entre os anos de 1954 e 1969, foi realizada a Operação Legado, uma operação de propaganda e destruição de evidências de crimes cometidos pelos ingleses, conduzida pelo Colonial Office, garantindo assim durante um tempo a proteção de Londres de acusações de crimes contra a humanidade (The Journal of Africa, 2022). Um caso muito conhecido desta prática foi o do Foreign Office. No ano de 2011, quatro cidadãos quenianos abriram um processo contra a Inglaterra, onde eram exigidas reparações pelas violências cometidas durante a Revolta dos Mau-Mau, entre os anos de 1952 e 1956. Paulo Nzili, Nduku Mutua, Wambugu WaNyingi e Jane Muthoni Mara, que afirmaram apenas terem ajudado os revolucionários com o fornecimento de água e comida, foram acusados de fazer parte da guerrilha dos Mau-Mau. Como consequência desta acusação, sofreram diversas violências morais e físicas. Jane Muthori, única mulher deste grupo, foi presa aos 17 anos e relatou passar por torturas como a introdução de garrafas com água quente em sua vagina (Neto, 2019).


Apesar de inicialmente alegarem que os fatos relatados eram falsos e insistirem na falta de provas, o governo inglês foi obrigado a abrir os arquivos secretos, que continham 300 caixas com mais de 1.500 documentos que corroboravam os episódios de violência contados pelos cidadãos quenianos durante a Revolta dos Mau-Mau, confirmando assim o legado colonialista sanguinolento adotado pela Inglaterra. Desta forma, o Estado foi obrigado a reconhecer os crimes e pagar indenizações individuais.


Já as trajetórias descoladas do colonialismo consistem na elaboração de uma história metropolitana democrática dissociada das ações em território colonial (Oliveira, 2022). Como forma de manter o reinado em um contexto de pós-guerra e crise do colonialismo, Elizabeth II manteve um papel neutro durante o seu reinado, principalmente ao não compartilhar a opinião da família real de forma pública sobre assuntos politicamente importantes. Desta forma, a monarca exerce uma postura decisiva na dissociação da monarquia britânica com o colonialismo. Apesar de não ser nem de perto uma solução de reparação de décadas de escravidão, segregação, exploração e genocídio, nunca foram proferidos pedidos de desculpas oficiais aos territórios colonizados pela Inglaterra na África, Ásia e Caribe.


O terceiro pilar para a construção deste mito de benevolência é a Cultura Pop. Através dela, foi introduzida no dia a dia dos cidadãos britânicos e internacionalmente, através dos meios de comunicação de massa, uma cultura visual da realeza íntegra, digna dos filmes infantis da Disney que abordam reinos muito, muito distantes. Ao longo de seus 96 anos, Elizabeth II virou praticamente um sinônimo de rainha, atingindo uma popularidade global através de sua inserção na Cultura Pop. A vida da monarca foi inspiração para músicas, audiovisuais (filmes, documentários, animações), pinturas, tornando-se inclusive colecionável, através de produtos como o Funko¹.




MÚSICA

Possivelmente, a música mais famosa em que Elizabeth II foi citada é God Save The Queen. O single da banda Sex Pistols, lançado em 1977, tráz como capa a imagem da rainha fotografada para seu Jubileu de Prata com intervenções em colagem, onde seus olhos e bocas estão escondidos pelo nome da banda e do single. Ao fundo, é possível visualizar a bandeira do Reino Unido, com suas cores tradicionais: vermelho, azul e branco.



Capa do single God Save The Queen, dos Sex Pistols

Fonte: O Globo (2022)



O artista responsável pela capa do single, Jaime Reid, também criou uma versão diferente da parte central da obra, em que o rosto de Elizabeth II aparece com um alfinete no lábio e suásticas no lugar das pupilas. A suástica representada pode ter relação com controvérsias existentes no contexto de seu casamento com Philip, já que ele possuía alguns parentes com associações aos nazistas.



Segunda versão produzida pelo artista Jaime Reid

Fonte: Artsy (2022)



Apesar de imagens impactantes para a época, a letra da música é ainda mais intensa: “Deus salve a rainha / O regime fascista / Eles fizeram você um idiota / Uma potencial bomba H / Deus salve a rainha / Ela não é um ser humano / e não há futuro” (tradução livre). A música foi banida da rádio e do canal de televisão BBC. Este fato aumentou a curiosidade da população sobre a obra, o que ajudou a música a atingir o segundo lugar das paradas de sucesso, alavancando a carreira do grupo (O Globo, 2022).




ANIMAÇÕES



Elizabeth II apareceu como personagem de desenhos animados como Family Guy, South Park e Minions. Apesar do alcance grandioso dessas animações, considera-se que a aparição mais famosa da rainha seja na animação de sucesso criada por Matt Groening, Os Simpsons. A monarca fez parte de seis episódios, além de ter sido mencionada diversas outras vezes pelos personagens fixos da animação (Redel, 2022).



“Participação” da rainha Elizabeth II na animação Minions

Fonte: Animation Source (s.a.)



O maior destaque da rainha na série Simpsons, foi no quarto episódio da 15ª temporada, que foi ao ar em 2003. O episódio retrata a família do personagem principal, Homer Simpson, desembarcando na Inglaterra. Neste episódio, Homer acaba batendo na carruagem real da monarca (Redel, 2022).



"Participação” da rainha Elizabeth II na animação Simpsons

Redel (2022)




ARTES VISUAIS


Para que seja construída a imagem régia e de poder de um monarca, são necessários muitos profissionais, que atuem mantendo sua imagem: alfaiate, joalheiro, poetas, escritores, músicos e pintores. Os retratos oficiais realizados por pintores reais ao longo centenas de anos buscavam não retratar o real; mas sim uma idealização, representando ao mesmo tempo imponência, graça e estilo (Neto, 2020).


Este gênero de produção artística tem uma longa tradição na pintura ocidental; o retrato ficou “vinculado às elites, tornando invisíveis protagonistas das populações que não faziam parte do círculo dominante” (Pedrosa, Britto, Schwarcz, 2022). Durante décadas, os retratos da rainha Elizabeth II seguiram o mesmo padrão, ressaltando os elementos de poder da monarquia: a coroa, o cetro e o manto (Neto, 2020). Um dos mais de 175 retratos feitos de Elizabeth II durante seu reinado foi pintado pelo artista Sir Herbert Gunn, encomendado em comemoração à coroação da rainha, que ocorreu em 1953.



Retrato pintado de Elizabeth II pintado por Sir Herbert Gunn

Fonte: Neto (2020)



Dois grandes símbolos de poder mostrados na pintura são a coroa imperial do Estado e o cetro, localizados na mesa ao lado esquerdo da pintura. As duas peças possuem gemas do maior diamante encontrado no mundo: Cullinan, também conhecido como “A Grande Estrela da África”. O valor estimado do diamante é de US$ 400 milhões de dólares, com 530 quilates.


O diamante, exposto orgulhosamente como símbolo de poder e riqueza da monarquia, foi extraído durante o período colonial na África do Sul, em 1905. Apesar de o Estado afirmar que o diamante foi dado ao reinado como símbolo de amizade e paz (Assis, 2022), é inegável que grande parte do enriquecimento da Inglaterra durante o período colonial foi realizado por meio da exploração de recursos naturais, especialmente a exploração de pedras preciosas (Caixeta, 2022). Esta exploração, como é de se esperar em um país até então colônia, não foi feita de forma amigável, podendo assim ser considerado como um roubo de um recurso natural que deveria pertencer à África do Sul. Atualmente, tanto o cetro como a coroa são expostos na Torre de Londres, na capital da Inglaterra, como motivo de orgulho do império britânico – e da exploração colonial, consequentemente.



Cetro e Coroa com gemas do diamante Cullinan

Fonte: Caixeta (2022)




Elizabeth II foi retratada por diversos artistas ao longo dos anos, como é possível observar no site NationalPortraitGallery, onde constam mais de 50 páginas de retratos da rainha. Porém, entre os retratados mais divulgados que se acumularam pelos anos, estão os realizados por Chris Levine, Jaime Reid, JustinMortimer, OluwoleOmofemi e Andy Warhol (Paiva, 2022).



Retrato de Elizabeth II feito pelo artista JustinMortimer em 1997

Fonte: Paiva (2022)



Warhol produziu uma série de serigrafias da monarca voltada à cultura pop. As obras foram desenvolvidas a partir de um retrato fotográfico da rainha realizado em 1975, pouco antes de seu aniversário de 49 anos. Nas obras, o artista ressalta ainda mais a presença de Elizabeth II no imaginário coletivo, através da reprodução da imagem em diferentes cores vibrantes. Algumas delas, inclusive ressaltam ainda mais o poder da família real, ao possuírem pó de diamante na composição.



Retratos de Elizabeth II feitos por Andy Warhol

Fonte: Filho (2022)



O mito do bom monarca instaurado pela monarquia britânica se fortaleceu fortemente durante os anos através do controle das informações, divulgação das trajetórias britânicas descoladas do colonialismo e da cultura pop. Todos estes exemplos citados acima são apenas uma parte de como a música, as artes visuais e o audiovisual de uma maneira geral influenciaram a imagem da monarca durante seus anos de reinado.


É inegável que este tipo de manifestação apenas tira o foco do que deveria ser um grande debate dentro do Reino Unido e no mundo: como compensar (se é que isto é possível) os anos de exploração e colonialismo promovidos pela coroa britânica dentro de outros territórios. É urgente enfrentar as feridas abertas dos períodos coloniais, períodos esses por qual a família real nunca se responsabilizou devidamente.


Além disso, é importante cada vez mais entendermos que tipo de “ícones” queremos ressaltar. Apesar de parecer uma visão radical, cada vez que relativizamos o passado colonialista de Elizabeth II e da família real britânica como um todo, exaltando através de apelidos como “Betinha” e discutindo sobre o look do dia da monarca, estamos esquecendo as milhões de pessoas afetadas por esse passado. Milhares de seres humanos que foram mortos, estuprados, desaparecidos, torturados, que perderam suas casas e seus territórios ancestrais.





REFERÊNCIAS


ANIMATION SOURCE. Queen Elizabeth II. Disponível em: <https://www.animationsource.org/despicableme/en/chars/Queen-Elizabeth-II/56758.html>. Acesso em: 11 out. 2022.


ARTSY. God Save The Queen (Swastika Eyes). 2022. Disponível em: < https://www.artsy.net/artwork/jamie-reid-god-save-the-queen-swastika-eyes-2>. Acesso em: 11 out. 2022.


ASSIS, Vinicius. África em luto pela morte da rainha Elizabeth II, apesar do passado colonial. 2022. Disponível em: <https://www.rfi.fr/br/%C3%A1frica/20220909-%C3%A1frica-em-luto-pela-morte-da-rainha-elizabeth-ii-apesar-do-passado-de-colonialismo>. Acesso em: 11 out. 2022.


CAIXETA, Izabella. Críticos destacam colonização e violência no reinado de Elizabeth II. 2022. Disponível em: <https://www.em.com.br/app/noticia/diversidade/2022/09/09/noticia-diversidade,1392537/criticos-destacam-colonizacao-e-violencia-no-reinado-de-elizabeth-ii.shtml>. Acesso em: 11 out. 2022.


FILHO, Lucio Reis. Rainha Elizabeth II: ícone onipresente da cultura pop. 2022. Disponível em: <https://projetoitaca.com.br/ rainha-elizabeth-ii-icone-da-cultura-pop/>. Acesso em: 11 out. 2022.


MASEKO, Nomsa. Elizabeth 2ª: a memória do passado colonial que gera críticas ao legado da rainha Elizabeth 2ª na África. 2022. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional62871616#:~:text=Mas%20a%20admira%C3%A7%C3% A3o%20n%C3%A3o%20%C3%A9,da%20%C3%8Dndia%2C%20escravid%C3%A3o%20e%20opress%C3%A3o. Acesso em: 11 out. 2022.


NETO, César. Quênia: Rebelião anticolonial dos Mau-Mau, genocídio e as primeiras reparações. 2019. Acesso em: <https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/opiniao/2022/09/10/com-silencio-e-cultura-pop-elizabeth-2-lavou-o-sangue-de-seu-colonialismo.htm>. Disponível em: 11 out. 2022.


NETO, Renato Drummond Tapioca. O poder da pintura: quais histórias os retratos das últimas soberanas inglesas nos contam?. 2020. Disponível em: <https://rainhastragicas.com/2020/12/26/o-poder-da-pintura-quais-historias-os-retratos-das-ultimas-soberanas-inglesas-nos-contam/>. Acesso em: 11 out. 2022.


O GLOBO. ‘God Save the Queen’: Vocalista do Sex Pistols presta homenagem à rainha Elizabeth II. 2022. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/cultura/musica/noticia/2022/09/god-save-the-queen-vocalista-do-sex-pistols-presta-homenagem-a-rainha-elizabeth-ii.ghtml>. Acesso em: 11 out. 2022.


OLIVEIRA, Marcus Vinicius de. Com silêncio e cultura pop, Elizabeth 2ª lavou o sangue de seu colonialismo. 2022. Disponível em: <https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/opiniao/2022/09/10/com-silencio-e-cultura-pop-elizabeth-2-lavou-o-sangue-de-seucolonia lismo.htm>. Acesso em: 11 out. 2022.


PAIVA, Matheus. Elizabeth II e os inúmeros retratos do seu reinado. 2022. Disponível em: <https://blog.artsoul.com.br/elizabeth-ii-e-os-inumeros-retratos-de-seu-reinado/>. Acesso em: 13 out. 2022.

PEDROSA, Adriano; BRITTO, Glauca Helena de; SCHWARCZ, Lilia Moritz. Retratos Brasileiros. Texto curatorial da exposição “Retratos Brasileiros” do artista Dalton Paula, exibida no MASP em São Paulo. 2022.

REDEL, Carlos. De brinquedo a recusa ao Trono de Ferro de “Game of Thrones”: como a rainha Elizabeth II marcou presença na cultura pop. 2022. Disponível em: <https://gauchazh. clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/noticia/2022/09/de-brinquedo-a-recusa-ao-trono-de-ferro-de-game-of-thrones-como-a-rainha-elizabeth-ii-marcou-presenca-na-cultura-pop-cl7tfe2n7005u0163ky6431mg .html>. Acesso em: 11 out. 2022.


THE JOURNAL OF AFRICA. Elizabeth II: uma rainha imaculada e um império que se recusa a morrer. 2022. Disponível em: < https://lejournaldelafrique.com/pt/elisabeth-ii-uma-rainha-inoxid%C3%A1vel-e-um-imp%C3%A9rio-que-se-recusa-a-morrer/>. Acesso em: 11 out. 2022.





¹Bonequinhos colecionáveis onde são representadas pessoas ou personagens famosos. Esteticamente, a característica mais marcante deste boneco é apresentar medidas desproporcionais entre a cabeça e o corpo, onde a cabeça é evidenciada através do aumento de seu comprimento, largura e profundidade.

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